terça-feira, 5 de agosto de 2008

O que os bichos pensam?

Novas pesquisas mostram que os animais são mais inteligentes do que se imagina. Alguns dão até sinais de consciência
Marcela Buscato para Época

Pisco Del Gaiso
CÃO-HERÓI
Brown brinca sob a supervisão de Márcio e sua mulher, Cecília. O cão achou o caminho de casa para pedir que alguém socorresse o dono

Brown é um dos 15 cães golden retriever do casal de criadores Márcio e Cecília Leite, de São Paulo. Um dos melhores representantes da raça: obediente, calmo e pouco afeito a latidos. Mas naquele 12 de outubro de 2006 nenhum de seus tratadores entendeu por que ele havia entrado em casa tão agitado, latindo e pulando nas paredes. Nem por que estava solto, fora de seu canil. Eles não sabiam que o cachorro tinha saído para passear com seu dono, Márcio. Era a primeira vez que Brown, um cão de competições de beleza, aventurava suas patas douradas pelas ruas do condomínio. A alegria do passeio acabou quando Márcio tropeçou e caiu em uma ribanceira, a 2 quilômetros de casa. Brown tentou levantá-lo. Como não conseguiu, foi buscar ajuda em casa. Ninguém lhe deu atenção. Márcio foi encontrado pela segurança do condomínio. As fraturas no rosto causadas pelo tombo e outras complicações lhe renderam 28 dias de hospital. Seis sedado. Só quando recobrou a consciência pôde desfazer o boato que corria entre médicos e enfermeiras: Brown não era o “cão que atacara” o próprio dono. “Ele tentou me salvar.” s

A atitude de Brown não é só uma emocionante demonstração de afeto. Mostra o que muitos donos de bicho de estimação desconfiam, e que novas pesquisas científicas estão começando a constatar. Os animais são mais inteligentes do que parece. Um tipo de inteligência bem parecida com a nossa. O imaginário construído em torno da idéia do filósofo francês René Descartes, no século XVII – de que os animais seriam como máquinas, desprovidos de emoção e pensamento –, persistiu até o século XX. Mas foi definitivamente sepultado por estudos recentes, como o publicado em março por cientistas da Universidade Saint Andrews, na Escócia. Eles confirmaram que os animais não estão tão distantes de nós em uma habilidade considerada exclusivamente humana: a linguagem.

Os pesquisadores provaram que um tipo de macaco africano pode combinar sons em algo que se parece com uma forma rudimentar de nosso sistema de comunicação. Nas florestas da Nigéria, os macacos de nariz branco usam um som agudo e outro gutural como alerta. Combinando os dois, um macaco avisa os outros integrantes do grupo que espécie de predador viu (um leopardo ou uma águia) e que atitude vai tomar (ficar quieto ou fugir). E ainda se identifica. Combinações como essas estão na raiz da nossa linguagem.

“Nós subestimamos a capacidade dos animais por muito tempo”, diz Irene Pepperberg, pesquisadora da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, uma das pioneiras no estudo da inteligência animal. Irene adora contar como outros pesquisadores reagiram quando ela anunciou que pretendia ensinar o papagaio Alex a falar. Eles queriam saber o que ela havia fumado. Parecia loucura, mas ela só queria que a ave pudesse lhe contar como pensava. Sua idéia deu tão certo que o papagaio aprendeu a contar e a diferenciar conceitos como cor, formato e material. Olhando seus brinquedos, ele sabia responder qual chave era maior, a verde ou a amarela. “Green” (verde), dizia.

O talento de Alex mostra que elementos de nossa inteligência não são exclusivos aos humanos. “Formas avançadas de processar informações estão em muitas criaturas”, afirma Irene. “Durante a evolução, tanto animais como seres humanos estavam sujeitos às mesmas pressões ambientais, que selecionaram essas características.” Entender como os animais pensam pode ajudar a revelar por que os seres humanos desenvolveram uma mente tão complexa.

A origem da linguagem é uma das questões mais intrigantes. Até onde se sabe, apenas os seres humanos possuem tal sistema. Somos capazes de dar nomes para as coisas que vemos no mundo e ainda podemos relacioná-los em uma frase, com termos sem significado concreto (como preposições e artigos). Dependendo da ordenação desses elementos, produzimos múltiplos significados. Graças a esse sistema podemos transmitir idéias abstratas, como a noção de passado, presente e futuro.

Experiências com outros primatas, nossos parentes mais próximos na escala evolutiva, tentaram verificar se eles seriam capazes de aprender nossa linguagem. Os estudos ficaram famosos porque era irresistível ver chimpanzés usando a linguagem de sinais, a mesma usada por pessoas surdas. E eles tinham certo talento. Nim Chimpsky, um chimpanzé criado por pesquisadores americanos, fazia o gesto de “sujeira” (seu jeito de pedir para ir ao banheiro) só para escapar das aulas. A fêmea Washoe surpreendeu seus criadores ao unir os sinais de ave e água (ave da água) para se referir a um cisne.

As pesquisas causaram entusiasmo na década de 1970, mas logo os pesquisadores s descobriram que os animais eram apenas bons aprendizes. E que tinham uma grande capacidade para se comunicar. Porém, nunca poderiam aprender a usar as palavras como os seres humanos. Talvez falte ao cérebro deles aquilo que nos faz capaz de ter linguagem (e que até hoje a ciência não sabe exatamente o que é). Os chimpanzés haviam aprendido alguns sinais e até os combinavam aleatoriamente. Mas sem consciência do significado exato.

É por isso que um cachorro, uma criatura mais distante do ser humano na escala evolutiva, embasbacou cientistas. Há quatro anos, o cão Rico, da Alemanha, deu indícios de que talvez as bases do tipo de raciocínio que usamos para aprender a linguagem também tenham surgido em outras espécies. Rico, um border collie, usava o mesmo processo mental que as crianças humanas para aprender palavras novas. O dono apresentava a ele vários brinquedos, entre os quais apenas um era novidade. E pedia para que o cão pegasse justamente o objeto desconhecido. Rico inferia que aquele som novo só podia corresponder ao brinquedo que ainda não tinha nome. Assim ele aprendeu mais de 200 palavras.

“Por enquanto, só encontramos essa habilidade em um único cão”, diz Juliane Kaminski, pesquisadora do Max Planck Institute, o centro alemão que estudou Rico. “Mas já é suficiente para dizer que essa técnica de aprendizado não é exclusiva dos humanos.” Rico morreu aos 12 anos, no ano passado. O significado de seu talento ainda gera discussão. Há quem afirme que o cachorro não tinha nenhuma técnica inata para associar sons a objetos. Apenas teria uma grande capacidade de raciocínio, adaptado para aquela tarefa.

4 comentários:

Robson Fernando disse...

Olá Clarissa!

Enfim uma parte mais numerosa da humanidade está aprendendo a considerar os sentimentos e personalidades dos animais.

Só falta essa turma parar de falar que são "donos" dos domésticos. Para animais com sentimentos e personalidade, é um contra-senso imoral igualá-los a objetos de propriedade (dono = proprietário = que tem propriedade sobre).


Este blog já está nos meus favoritos do Mozilla há um bom tempo, é realmente edificante.
E peço que visitem o meu, que trata de assuntos relativos a conscientização, dando destaque aos direitos dos animais: http://conscienciaefervescente.blogspot.com

Espero que goste.

bjos

Robson Fernando disse...

Obrigado, Clarissa.

Caso você tenha gostado do blog, sugiro uma coisa:
podemos mutuamente pôr nossos blogs nos links parceiros de cada um.

O que acha?

bjs

Robson Fernando disse...

Só um comentário meu. Caso leve como crítica, considere-a como construtiva, por favor.

Na minha concepção de vegetarianismo, ele se dá quando a pessoa deixou de consumir qualquer alimento de origem animal. Já o veganismo é quando se estendeu a outras áreas de consumo.

Ovolactismo, também em minha concepção, é apenas uma fase de transição, considerada "vegetariana" apenas por ser carregada da atitude de deixar de matar animais (mas em compensação a escravidão de vacas, o roubo de bezerros e o cárcere das galinhas são mantidos).

Não obrigo você a adotar esse ponto de vista, mas, para melhorar a eficácia do blog em promover uma alimentação realmente livre de exploração e crueldade, você precisa aprimorar a temática do blog para que ele seja realmente vegetariano, e não pareça apenas um blog anticarne.

Porque, aliás, uma pizza de mussarela com cobertura de ovo e mel de abelha não pode ser considerada um prato vegetariano.

Deixar é o primeiro grande avanço de alguém rumo ao vegetarianismo, mas não é tudo.

Espero que entenda minha posição, que não intenciona rechaçar a deste blog.

bjos

Robson Fernando disse...

Tudo bem, obrigado Clarissa.

bjos